Também a Igreja, que nasce deste mistério, dele deve viver permanentemente. «Todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício realiza-se a obra da nossa redenção» (oração SO da Missa da Ceia do Senhor). Celebrando continuamente o memorial da Páscoa, a Igreja vai experimentando que ela mesma é feita na Eucaristia que faz. Neste contexto ganha relevo a celebração anual do mistério pascal. Como já convidava o Apóstolo: «celebremos a festa, … com pães ázimos: na pureza e na verdade» (1Cor 5, 8).
O Tríduo consta da celebração da Paixão e Morte (Sexta-Feira Santa), Sepultura (Sábado) e Ressurreição (Domingo, começando na Vigília e terminando nas II Vésperas).
Mais do que uma sucessão de momentos autónomos, trata-se de um “contínuo” celebrativo com uma profunda unidade, culminando na Vigília Pascal, a “mãe de todas as Vigílias”, a mais importante de todas as liturgias do ano. Essa Eucaristia era, originariamente, a única do Tríduo, pondo termo ao jejum sacramental dos dois primeiros dias.
Atualmente, não é assim, porque a celebração da Missa da Ceia do Senhor (Quinta-Feira Santa, último dia da Quaresma) passou a ser considerada como a abertura e introdução do Tríduo. Isso quer dizer que, em termos litúrgicos, essa Missa já pertence à Sexta-Feira. Caso contrário, teríamos um “tríduo” com quatro dias!
Procuremos, pois, evidenciar a unidade das celebrações e a sua progressão. Essa dinâmica ajuda a sentir a Páscoa como “passagem”.
Assim, por exemplo, a celebração da Ceia do Senhor não deve aparecer como uma festa isolada da Eucaristia e do Sacerdócio (que também é), mas como uma verdadeira introdução à celebração pascal no seu todo, o que transparece logo desde o cântico de entrada (“Toda a nossa glória está na Cruz.…”).
Significativamente, a primeira leitura apresentará a instituição da Páscoa do AT (Ex 12, 1-8.11-14). E a celebração termina sem despedida da assembleia; o mesmo acontecerá em 6.ª Feira Santa. Como se estivessem em assembleia contínua, os fiéis só serão despedidos solenemente no final da Vigília pascal!
O Tríduo põe problemas pastorais não indiferentes. À suaprincipalidade no ordenamento litúrgico deveria corresponder aexcelência da realização celebrativa: deveriam intervir todos os ministros previstos, escolhendo-se aqueles que, objetivamente, são os mais capazes e apostando, em geral na qualidade de todas as propostas: os melhores leitores, os melhores salmistas, os melhores acólitos, a melhor música, as melhores homilias… Infelizmente, porém, estamos longe desse ideal: as férias e mobilidade (“nomadismo”?), que caracterizam a nossa época, dispersam as comunidades.
SDL, Porto