Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição 2021
A Palavra de Deus põe em contraste, quase como num filme a preto e branco, a pureza e a beleza de Maria, a cheia de graça, e a nudez envergonhada do primeiro par humano a tentar esconder a sujidade do pecado. O sim humilde da escuta obediente de Maria, toda ouvidos à Palavra que vibra nas mais íntimas fibras do seu coração, contrasta com o não arrogante e desobediente do par humano, que faz orelhas moucas às palavras loucas de Deus. Este contraste entre a santidade de Maria e o pecado das origens estimula-nos a este desafio, no âmbito da nossa dinâmica pastoral: limpar os sapatos, para sair da lama do pecado, o que pressupõe limpar os ouvidos, para escutar com humildade. Permitam-me expor estas duas imagens que se completam: limpar os sapatos e limpar os ouvidos.
1. Limpa os teus sapatos!A minha mãe dizia que nada estaria limpo em nós se os nossos sapatos estivessem sujos. Isto trouxe-me à mente uma visão de Santa Hildegarda. Descreve esta mística alemã: «No ano de 1170, estive durante longo tempo doente na cama. Então, física e mentalmente acordada, vi uma mulher de uma beleza tal que a mente humana não é capaz de compreender. A sua figura erguia-se da terra até ao céu. O seu rosto brilhava com um esplendor sublime. O seu olhar estava voltado para o céu. Trajava um vestido luminoso e fulgurante de seda branca e um manto guarnecido de pedras preciosas. Nos pés, calçava sapatos de ónix. Mas o seu rosto estava salpicado de pó, o seu vestido estava rasgado do lado direito. Também o manto perdera a sua beleza singular e os seus sapatos estavam sujos por cima. Com voz alta e pesarosa, a mulher gritou para o céu: “Escuta, ó céu: o meu rosto está manchado! Aflige-te, ó terra: o meu vestido está rasgado! Treme, ó abismo: os meus sapatos estão sujos”. Era uma visão da impureza da Igreja, que, em vez de se apresentar ao mundo como Esposa de Cristo, santa, pura e imaculada, à imagem de Maria, tinha os sapatos sujos, porque muitos, a começar pelos ministros da Igreja, – dizia a Mulher –“sujam os meus sapatos, porquenão caminham por estradas direitas, nem dão bom exemplo”. Irmãos e irmãs, esta visão parece dizer-nos: não se limpam os sapatos nem se lavam os pés lavando as mãos, como Pilatos, da nossa responsabilidade, acusando a mulher ou culpando os outros de todas as desgraças. Não há outra maneira de limpar os sapatos do que sujar as mãos na luta por uma Igreja mais santa. E por onde começar a limpeza da Igreja? Pelos outros? Não. Começo a limpeza da Igreja por mim, limpando os sapatos dos meus passos mal andados!
2. Limpa os teus ouvidos! É importante saber escutar, de ouvid0s limpos, sem a cera e a pressa das respostas tipo pronto a vestir. Em tempo de Sínodo, para falar com coragem é preciso aprender a escutar com humildade. E para escutar com humildade é preciso libertar a mente e o coração de preconceitos, de ideias feitas e contrafeitas sobre aqueles a quem escutámos, que funcionam como ruídos na comunicação. Para escutar com humildade, não se pode emprenhar pelos ouvidos; é preciso ter os ouvidos limpos, prontos a acolher, mesmo sem compreender o que os outros nos dizem, como um modo através do qual o Espírito Santo nos pode falar. Uma Igreja sinodal é uma Igreja onde todos se escutam: cada um à escuta dos outros e todos à escuta do Espírito Santo. Maria, no seu silêncio fecundo, ensina-nos a escutar Deus, até ouvir com Ele o grito do seu povo e a escutar o povo, até ressoar nele a vontade de Deus. Não insonorizemos o coração, não nos blindemos nas nossas certezas. Escutemo-nos, mais e melhor.
3. Neste itinerário sinodal, interroga-te sinceramente: Como estás quanto à escuta? Como funciona o ouvido do teu coração? Em família e na Igreja, a quem dás mais ouvidos? Deixas que as pessoas se exprimam até ao fim? A quem não tens prestado a atenção devida? Dás ouvidos à Igreja? Sentes que a Igreja te dá ouvidos?
Neste Advento de 2021, aproxima-te de alguém, inclina o ouvido do teu coração, ao jeito de Maria, e diz ao teu irmão mais ignorado, à tua irmã menos atendida: Eis-me aqui. Sou todo(a) ouvidos para ti!
Pés ao caminho. Juntos pelo Natal.Este é o lema da nossa dinâmica pastoral, para um Natal em modo sinodal. E o caminho faz-se caminhando. Pelo que, hoje, o desafio é este: Usa os teus sapatos. Desbrava caminhos! A Liturgia deste II Domingo do Advento recorda-nos a figura de João Batista, que prepara o caminho do Senhor. Prepara-o, não sentado no conforto do Templo ou do Palácio, mas sujando os pés e as sandálias no pó do deserto. É ali, no deserto da solidão, onde não há quase nada, que João Batista se faz voz da Palavra, que hoje quer chegar também ao teu, ao meu, ao nosso coração.
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“Pés ao caminho. Juntos pelo Natal”. Este será o lema da nossa dinâmica pastoral, desde o início do Advento até à Festa do Batismo do Senhor. Para dar início a este caminhar juntos, em família, em comunidade cristã, de mãos dadas, com todos os irmãos e irmãs deste mundo, o desafio primeiro que se nos coloca é este: levantarmo-nos do chão, erguermos a cabeça para o alto, deixarmos as pantufas e o conforto do sofá e calçarmos um par de sapatos! Queremos dar a esta bela caminhada um estilo sinodal, para aprendermos a percorrer juntos o caminho que Deus nos chama a fazer, em família, em Igreja, no nosso mundo. Porque caminhamos sempre juntos e à luz do Senhor, que vem até nós atravessando as espessas nuvens do nosso tempo, acendemos agora a 1.ª vela da Coroa do Advento.
Concluímos hoje o ano litúrgico, com a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A liturgia deste domingo convida-nos a contemplar o rosto humano e divino de Jesus, aclamado como o Filho do homem. Ele é o Rei do Universo, mas reina a partir da Cruz, naquele amor com que nos atrai para o Pai. Com Cristo, Rei e Senhor, aprendemos que o poder de Deus não se manifesta no uso da violência armada, mas no amor com que nos acolhe, nos perdoa e abraça a todos. Com Ele aprendemos que reinar é servir. É este o Seu modo de reinar: Ele não reina dominando-nos, mas atraindo-nos no Seu amor.
“Pobres, sempre os tereis entre vós” (Mc 14,7). Do óbolo da pobre viúva, exaltada por Jesus no Evangelho do domingo passado, à celebração do 5.º Dia Mundial dos Pobres, neste penúltimo domingo do ano litúrgico, permanece bem atual o convite de Jesus a não perder de vista a oportunidade de fazer o bem. Não há melhor forma de garantir o futuro do que viver bem o presente. A Palavra de Deus, neste domingo, é mais um sinal de alerta vermelho, de redobrada atenção, não porque o fim do mundo esteja próximo, mas porque é urgente lutar por um mundo novo. Deixemo-nos interpelar por esta espécie de “Plano de Recuperação e Resiliência”, que a Palavra de Deus nos oferece para esta mudança de época.
Amarás o Senhor, teu Deus, com toda a tua alma, com todo o teu coração, com todas as tuas forças! Ouvíamos, há oito dias, esta belíssima fórmula de oração judaica, no diálogo entre Jesus e o escriba. Agora, ao vivo, no templo, Jesus confronta a soberba, a avidez e a hipocrisia dos escribas, que jogam as sobras, com a gratuidade, a confiança e a generosidade da viúva que dá tudo o que tem para viver. Na conclusão da Semana de Oração pelos Seminários, tenhamos presentes os seminaristas e os seus formadores. Ofereçamos ao Senhor a alegria das crianças, a ousadia dos adolescentes e o entusiasmo dos jovens, para que o Senhor, ao ver a riqueza do seu coração pobre, encontre neles a liberdade e a coragem de dar e arriscar tudo por amor a Deus e aos irmãos.
Memória, gratidão e esperança. Com estes sentimentos, que se atravessam no nosso coração, cruzamos esta ponte que nos une aos que partiram antes de nós, que une a Terra e o Céu, o tempo e a eternidade, o princípio vital e o fim último da nossa vida finalizada em Cristo. Reunimo-nos em oração, na certeza de que esta pode não só ajudar os que partiram antes de nós, mas também tornar mais eficaz a oração de cada um deles em nosso favor. Na Eucaristia, que juntos celebramos, encontramos o lugar por excelência desta memória viva da Páscoa do Senhor, da gratidão mais profunda do coração que se eleva para Deus em ação de graças. Que esta celebração (no cemitério)| Que esta Eucaristia (na Igreja)“aumente em nós a esperança de que os nossos irmãos e irmãs, chamados a ser pedras vivas do templo eterno de Deus, ressuscitarão gloriosamente com Cristo” (cf. Ritual das Exéquias, n.º 97).