Homilia no IV Domingo da Páscoa A 2026
1. “As ovelhas seguem-no porque conhecem a sua voz” (Jo 10,4)! No tempo de Jesus, os rebanhos que pastavam nas montanhas da Judeia pertenciam a diversos proprietários e, assim, cada pastor fazia-se reconhecer junto das suas ovelhas através da sua voz e pelo nome com que as chamava. Por isso, diz o Evangelho, as ovelhas fogem de um estranho, porque não reconhecem a sua voz (cf. Jo 10,5)! O rebanho é conduzido pela presença do pastor, mas no fundo, é sempre uma relação de escuta, baseia-se na voz. A voz chega onde a visão não chega! No meio do escuro, por exemplo, a voz familiar pode ser ouvida, tranquiliza e orienta. Se a ovelha se perder, ela poderá ouvir a voz do Pastor e reconhecê-lo. É a voz que conta. Seguir Jesus não é ir atrás de um discurso, de uma filosofia, de uma moral; é seguir uma voz íntima, conhecida, amada, confiável. Pelo contrário, se não houver essa relação íntima de conhecimento e de confiança, a voz não nos diz nada! Não nos basta conhecer as palavras de Jesus, é preciso reconhecer a sua voz inconfundível, no meio de tantas vozes ruidosas e dispersivas.
2. Na sua Mensagem para este 63.º Dia Mundial das Vocações, o Papa Leão XIV insiste na necessidade de um conhecimento íntimo e recíproco, entre nós e o Senhor. Deus conhece-nos profundamente e para cada um pensou um caminho único de santidade e de serviço. Mas é necessário também que nós O conheçamos e reconheçamos pela Sua voz. Não se trata de um conhecimento abstrato ou erudito, de quem alguma vez ouviu falar d’Ele ou sabe muitas coisas acerca d’Ele, mas de um conhecimento que brota da fé viva, de um encontro pessoal com o Senhor, que transforma a vida. Ora, essa relação constrói-se na oração diária e no silêncio, na meditação assídua da Palavra de Deus, na participação assídua da Eucaristia, no compromisso eclesial assumido fielmente. A resposta vocacional não resulta da obediência a uma imposição divina, que vem de cima, mas é adesão livre e amorosa, por dentro, a um projeto de amor e de felicidade, que Deus sonha para nós. É resposta a uma voz que não se impõe e que oiço bem cá dentro; por isso mesmo, esta voz se apresenta sob a imagem de uma Porta aberta: porta de entrada para a comunhão com Cristo e porta de saída a partir d’Ele ao encontro dos outros. Sem esta relação pessoal e vital não há resposta vocacional!
3.Seria oportuno fazermos hoje um exame pessoal e pastoral, em chave vocacional e perguntarmo-nos: porque é que há tantas pessoas em tarefas, serviços e ministérios na Igreja e não há vocações à vida sacerdotal, consagrada, missionária? Não há um défice de resposta, porque há um défice de escuta? Não haverá ativismo a mais e oração a menos? Perguntemo-nos ainda: Porque é que há tantos jovens e adultos - alguns dos quais crismados, acólitos, escuteiros, catequistas – que vivem hoje tranquilamente em união de facto e desprezam ou adiam sucessivamente a celebração do seu matrimónio católico? Neste desprezo ou procrastinação (adiamento) não há um défice de fé e de confiança na providência de Deus, que não nos falta com a Sua graça? Não andaremos mais à volta de Cristo, do que centrados e concentrados n’Ele? Na verdade, quando falta esta relação pessoal com Cristo, não chegamos a ser Igreja, “andamos na Igreja”, como quem faz parte de um clube social ou de uma associação humanitária. Não será que nos preocupamos mais em angariar voluntários do que em fazer discípulos missionários? Queremos ser simples admiradores de Jesus, à distância, sem risco nem compromisso, ou seguidores, que seguem o seu exemplo e os seus passos? Se vier a faltar este encontro pessoal com Cristo, em vez de fiéis comprometidos com a missão, teremos apenas ovelhas gordas, mais prontas a reclamar pelo pasto, do que a gastar energias, no serviço do Reino! Quando esta relação com Cristo não é vivida, com profundidade, os próprios servidores da comunidade podem tornar-se líderes e senhores do seu quintal paroquial. Por isso, esta íntima união a Cristo, passa também por reconhecer o pároco, como único Pastor da comunidade, que une e reúne em Cristo, as ovelhas dispersas. Valorizamos o dom da vocação sacerdotal e do ministério do pároco, imagem de Cristo, Pastor e Guarda das nossas almas? Ou tornarmo-nos ovelhas desgarradas, senão mesmo ovelhas à desgarrada, a ver quem manda mais ou quem fica com a melhor parte do aprisco?!